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Viagem em grupo com guia brasileiro. Entre o bem e o mal

Há 3 anos fiz uma viagem pelo Sudeste Asiático. Vietnã, Camboja, Laos e Tailândia. Fora algumas fotos nas redes sociais, não tem nadinha dessa viagem aqui no blog. Talvez porque tenha sido uma experiência, digamos, peculiar. O que era pra ser só uma viagem de férias acabou virando um Big Brother Brasil. Teve treta, climão, formação de casal, grupinhos, choro e um eliminado: o guia da viagem foi deportado.

Era só uma viagem de férias, com expectativa de belas paisagens. Virou um BBB, com direito a um eliminado. O guia foi deportado do Laos. (Foto: Angkor Wat)

Não vou expor pessoas, mas isso aqui não é uma obra de ficção. Provavelmente você já ouviu falar dessas viagens com guia ou acompanhante brasileiro. Não pode chamar de excursão porque precisa parecer ‘cool’ e não aquelas viagens que a gente fazia com nossa vó. Pois é, no site Mochileiros.com antigamente apareciam esses ‘agregadores de pessoas’ formando grupos de viagem. Como era proibido atividade comercial no fórum, eram sempre pessoas físicas, mas com uma operadora de turismo por trás. Depois o movimento migrou pro Facebook nessas comunidades tipo Mochileiros na Europa, Mochileiros na América do Sul, Companhia pra Viajar etc…

Um dia vi o anúncio da pessoa dizendo que um grupo sairia pro Sudeste Asiático. Acabei me inscrevendo e pagando o sinal por impulso. Comprar por impulso é uma atitude madura e inteligente? Não, né?

O certo é refletir bem antes de partir pra uma viagem em grupo. (Parque dos Budas)

Não fui na ingenuidade, pois eu sabia dos riscos que era viajar com um grupo de desconhecidos. Lidar com as diferenças é sempre complicado. Ainda mais em viagem, quando você está fora da sua zona de conforto e o nível de estresse já é naturalmente alto.

Eu também estava ciente de que pagaria mais caro. Nesse tipo de viagem você paga os seus custos, o lucro da operadora, a viagem do guia que acompanha e o salário desse guia. Tudo isso obviamente tem um custo adicional se comparado a uma viagem organizada por conta própria. Faz parte.

Mas as pessoas pagam mais por qual motivo? Justamente pela segurança, medo de viajar sozinho, não ter tempo de organizar viagem, não falar o idioma do local etc …

Perai! Eu, entusiasta das viagens solo, o que fazia nesse tipo de viagem? Além de querer saber como funcionava esse esquema, eu tinha certo receio de viajar sozinha pelo Sudeste Asiático. Sim, já li muitos relatos de meninas viajando tranquilamente sozinhas por lá, mas eu simplesmente não estava no clima daquela vez.

No dia da viagem me apresentei no aeroporto de Guarulhos conforme combinado. Grupo eclético e muito simpático. Primeiro dia na casa do BBB, uma maravilha. Aliás, todo mundo era realmente gente boa a sua maneira. Incompatíveis, talvez.

Ir até o final, se quiser vencer

O Vietnã foi o primeiro destino. Os grupinhos começaram a se formar, mas ainda sem estresse. (Halong Bay)

Primeira etapa foi o Vietnã. País maravilhoso, mas já na primeira semana dava pra notar os grupos se formando. Isso é natural demais, pensei eu. Basta manter a cordialidade que gentileza gera gentileza.

Depois fomos pro Camboja, bem legal, mas com nível de estresse já aumentando. Em parte pelo cansaço natural da viagem e pelas diferenças de personalidades. Para efeito de compreensão, eu tento manter meu lado Suíça. Não me envolvo em treta, procuro não demonstrar preferências e sempre que possível me finjo de planta.

Só que na entrada do Laos, caros brothers e sisters, a coisa encrencou. Tivemos o ápice da nossa história. Nossos heróis foram ao chão quando o guia foi impedido de entrar no país. Pra completar eu fui roubada pelo agente de imigração.

A paz dos monges é o oposto da passagem na imigração do Laos. Um participante eliminado. Por acaso era o guia da viagem.

O clima na chegada ao Laos foi bem pesado. Os agentes de imigração  pareciam milicianos abusando dos podres poderes. Disseram que o passaporte do guia não tinha uma folha livre pro carimbo. Sim, o rapaz viaja muito nesse esquema de levar grupos e tinha orgulho do passaporte cheio. Eles queriam uma folha inteirinha limpa (frente e verso) pra carimbar e realmente não tinha. Ele respondeu de forma insolente e foi o suficiente pra traçar seu destino. Deportação não é a palavra jurídica correta, mas foi barrado e convidado gentilmente a se retirar do país.

Imigração no Laos: primeira prova de resistência

Minha vez no guichê e o agente perguntou se ele estava com nosso grupo. Eu disse que sim, que era o ‘responsável’ e ele respondeu: “pois é, ele não vai entrar”. Pra completar me roubaram o troco da taxa de visto. Dei 50 USD e deveria receber 20 USD ou 30 USD de volta. Eu pedi o troco, mas, gritando, ele me mandou passar logo. Eu amarelei de medo e passei. Pra eles, não custava nada mandar mais um pro paredão. Decidi não brigar ali por alguns dólares que não me fariam falta. Tudo que eu queria era sair daquela área de imigração.

Foi uma demora interminável até termos a notícia de que o guia havia recuperado a bagagem e compraria um bilhete pra Bangkok, nossa etapa final da viagem. Enfim, o barco ficou sem capitão na parte do Laos, onde passaríamos 5 dias.

Algumas pessoas surtaram porque não tinham segurança de viajar por conta. Claro! Por isso compraram esse tipo de viagem “viajar com acompanhante brasileiro”.

No Camboja as amizades já estavam se sustentando assim, artificialmente. A deportação do guia da viagem desandou tudo no Laos.

Casa sem líder e o caos

Isso foi a gota d’água pro BBB se instalar definitivamente. Cada grupinho foi se virar como podia e as diferenças se acentuaram a nível máximo. Olha só a falta que faz uma liderança? Seguimos pro hotel cabisbaixos, com a moral abalada. Eu nem comentei com ninguém que tinha sido roubada pra não piorar o climão. Não tinha confessionário pra eu desabafar.

Tudo que eu queria era um confessionário pra desabafar. Fui roubada na imigração.

Começamos a organizar os passeios separadamente nos dias seguintes. Um grupo queria visitar tudo correndo e atualizar as redes sociais. O meu grupo queria fazer tudo com calma. O clima ficou péssimo com a divisão. Fizemos todas as visitas no Laos como estava previsto no script, mas em grupos separados.

As visitas no Laos foram feitas como manda o figurino, mas o grupo se dividiu. Climão!

Chegando em Bangkok o ‘ex-guia’ estava lá há dias e não tinha mais tanto interesse em visitar as coisas de novo. Inclusive arrumou uma namoradinha local e sumiu alguns dias, no estilo “Se beber, não case, em Bangkok”. Eu e meu grupo não tínhamos mais interesse em ter guia. Fizemos o restante das visitas por conta própria. Uma parte voltou pro líder da casa quando ele reapareceu.

Ficou aquela situação meio esquisita, mas concluímos a viagem com êxito até o último episódio! Somos ou não somos guerreiros?

Agora levo tudo na brincadeira, mas no momento algumas situações foram bem chatas. Algum trauma eu tive porque, além de nunca ter escrito aqui no blog sobre a viagem, ainda levei 2 anos pra pegar nas fotos e organizar. Não acabei ainda. Depois disso já viajei bastante, mas somente com amigos ou sozinha.

Dá pra identificar uma furada?

 

Viajar em grupo não é fácil. É um teste de paciência, equilíbrio e resistência. (Templo de Cao Dai)

Se o seu objetivo é viajar com a segurança de ter um guia brasileiro veja se isso está incluindo no seu contrato. No meu não estava, por exemplo. O acompanhamento foi informal. Aliás, o guia nem gostava de ser chamado assim. Fazia o estilo ‘estamos viajando juntos em um grande mochilão’.

O fato de ter uma agência ou operadora organizando costuma ser uma vantagem. É segurança se a empresa for séria e clara no que oferece.

Peça a lista dos hotéis onde você vai ficar. Eu pedi várias vezes e recebi já em cima da viagem. O que estava incluído nunca ficou muito claro e isso é um péssimo sinal.

Não existe almoço grátis. Viagens acompanhadas de um guia custam mais caro. É preciso pagar os custos, o salário dele e o lucro da operadora.

Viaje com um passaporte com folhas suficientes pra serem carimbadas. Frente e verso. O guia foi impedido de entrar por conta de um passaporte ‘cheio’.

Sempre pague as taxas de visto com dinheiro trocado. Não espere troco nas fronteiras, pois pode se aborrecer.

O nome da operadora?

O objetivo não é um post “Reclame Aqui”. Como falei antes, fui uma consumidora relapsa e assumi alguns riscos. A agência se chama Superjet Brasil, de São Paulo, pra quem ficou curioso. Sobre o fato de o grupo ser eclético obviamente a operadora não tem culpa. No entanto, a viagem foi problemática na escolha dos hotéis, clareza do que era incluído ou não, o guia que não era guia, conexões absurdas de vôo.

A operadora nunca tinha vendido esse roteiro. Fomos cobaias. Também não sei o tipo de acordo que tinha/tem com a pessoa que capta viajantes/clientes na Internet. Mandei um e-mail relatando o ocorrido com o guia e outras coisas sobre o serviço prestado e nunca me responderam. Eu deixei pra lá. Ganhei experiência de vida e como consumidora.

Se eu viajaria de novo em grupo?

Sim, viajaria. Não com essa tal Superjet Brasil, obviamente. Nesse mesmo esquema de viagem com acompanhante brasileiro existem várias operadoras e pessoas sérias que oferecem.

É uma ótima forma de desbravar lugares insólitos e viajar despreocupado. Sobre a dificuldade em gerenciar um grupo, um bom guia sabe fazer. Pra isso ele tem formação e …um passaporte com espaço suficiente pra passar nas fronteiras, obviamente.

E vocês, brothers e sisters, já viajaram em grupo? Deixem por aqui suas experiências.

About Nivea Atallah

Jornalista de formação e mochileira por vocação.

2 comments

  1. Ana Carolina Santos

    Que loucura! Ainda bem que deu tudo certo!

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