Muito sol, cansaço, noites mal dormidas. Falando assim parece um pesadelo, mas atravessar os Lençóis Maranhenses a pé é uma aventura enriquecedora. Do sacrifício, ficou a satisfação de ter feito algo extraordinário e de ter visto o deserto na sua forma mais selvagem, bem longe da multidão de turistas que lotam os jipes nos passeios de ida e volta. Essa travessia é a chance de vivenciar o mundo das comunidades de pescadores que moram no interior do parque. Vitimas do isolamento, ostracismo e das demais dificuldades, representam uma historia dura, mas que, por ironia, se passa em um cenário digno de paraíso.

O inicio da caminhada foi por Santo Amaro, a partir da Lagoa da Gaivota.
Saímos de São Luis as 5:30 ainda de madrugada no serviço de van coletiva que leva até Barreirinhas. No roteiro que escolhi, não precisávamos ir até Barreirinhas. Descemos 200 km depois, em Sangue (3h de viagem), onde a caminhonete da pousada nos esperava. A partir dai, 35km e 1h30 de trilha bem acidentada com algumas partes alagadas. Um verdadeiro rally pra chegar até Santo Amaro.
Chegamos em Santo Amaro por volta de 12:00. O melhor é dormir em Santo Amaro e sair no dia seguinte em direção a Queimada dos Britos, mas como tinhamos pouco tempo decidimos encarar o sol de 14:00 (prefira uma noite em Santo Amaro). Depois do almoço e de descansar um pouco partimos em 4×4 rumo a uma das portas do deserto, 30 minutos pelos Lençois até o limite onde carros são permitidos- a Lagoa da Gaivota.
Não caia na tentação de fazer o trajeto Santo Amaro – Queimada dos Britos em 4×4. Alguns espertinhos oferecem essa opção, mas a entrada de carros nos Lençóis Maranhenses é proibida por lei e crime ambiental. Se não tem preparo fisico, pode tentar fazer de cavalo.
A partir da Lagoa da Gaivota, seguimos a pé durante 8h, parando pra tomar banho nas lagoas. Como era época de chuvas, tivemos que cruzar muitas lagoas quase a nado com mochilas na cabeça.

Essa tipo de viagem – travessia – nos Lençóis Maranhenses exige muita resistência física e psicológica, com 2h de caminhada já não existe mais nenhum referencial de orientação. Dunas infinitas nos quatro cantos.
Como partimos tarde de Santo Amaro, anoiteceu, pra piorar começou a chover, essa parte foi um pouco tensa, mas chegamos vivos até a Queimada dos Paulos, oásis que junto com a Queimada dos Britos concentra as dunas mais bonitas dos Lençóis Maranhenses. As queimadas são consideradas as áreas onde viveram os primeiros habitantes dos Lençois e até hoje guardam um certo resquício daquela época. Parece que o tempo parou. Chegamos famintos e fomos muito bem acolhidos na casa do Seu Massu. Jantamos uma boa galinha caipira e fomos dormir. Não tem luz elétrica, as casas são de terra batida, feitas de pau a pique com telhado de palha. A noite é em rede.
Os moradores do parque não têm o habito de dormir em camas, só em redes. Hora de se adaptar, pode ser um pouco difícil pra quem não esta acostumado, mas o cansaço ajuda no sono.
Seu Massu dando o café da manhã pra cria, a cabrinha é uma das muitas da região. São companhia constante na caminhada pelo deserto. Vivem soltas, criadas de forma extensiva.
A pesca é a atividade principal dos moradores, quando não caminham até o mar, pescam nas lagoas do lado de casa mesmo.
Acordamos e por volta de 11h saimos em diração à segunda etapa. Foram 3h de caminhada em direção a casa da Rosa, em Baixa Grande. No caminho, barulho somente o do vento e solidão total. De tempos em tempos encontravamos com algumas cabras. Elas pertemcem aos habitantes do parque, mas criadas de forma extensiva. Ficam soltas e se viram pra comer e viver. Uma vez por ano os donos saem em comitiva pra reunir o rebanho. Aqui é o meio dos Lençois Maranhenses. Pra quem tinha caminhado o dia anterior todo essa parte foi facil, paramos algumas vezes pra tomar banho nas lagoas e logo chegamos em Baixa Grande – infra-estrutura melhor, mas felizmente ainda sem energia elétrica. A noite também é em um redario coletivo. A comida muito boa como sempre, assaram castanha de caju na hora. Sem contar os bolos e doces de murici, buriti e outros tis.
No ultimo dia o cansaço bateu, afinal dormir em rede não é minha especialidade. Partíamos pra uma caminhada de 8h até a Lagoa Bonita, já quase na saída dos Lençóis Maranhenses. Acordamos às 4h da manhã e tomamos o delicioso e farto café da manhã. Sair de madrugada é essencial pra evitar o sol de meio dia na maior parte da caminhada.
Em época de cheia, a travessia é assim em alguns pontos : mochila na cabeça e água no pescoço
No caminho um show de paisagens, as luzes da manhã são as mais favoráveis à fotografia nessa região.
Por volta de 11h da manhã o sol estava bem forte e ficou difícil caminhar. Apesar de estar de chinelo, meus pés começaram a queimar e uma temida bolha enorme no dedão apareceu. Fiz as ultimas horas então de meia, o que me ajudou muito.
Paramos bastante pra um refresco nas águas cristalinas. O sol realmente estava muito forte, o que atrasou nossa chegada. Foram 10h de caminhada para começamos a chegar nas áreas turísticas e avistar outras pessoas. Estávamos quase na Lagoa Bonita que como diz o nome é realmente maravilhosa. Ela é a porta principal de entrada no deserto e onde chegam os jipes vindos de Barreirinhas.
Quando descemos a ultima duna encontramos o quiosque pra comprar água gelada. Alguns minutos de descanso e reflexão pra finalmente realizar o que tínhamos feito antes de embarcarmos na caminhonete que nos levaria a Barreirinhas. Foram mais 40 minutos de 4×4 no meio da plantação de buritis e aguns sítios até chegar a Pousada do Rio.
Eu fiz com uma agência e praticamente todas em São Luis são capazes de propor. Uma boa opção é procurar a associação de condutores de Barreirinhas e ir direto na fonte pra encontrar um guia : Central das Cooperativas. (98) 349 0000 . Avenida Rodoviária, S/N. Bairro Boa Fé, Barreirinhas/MA.
Basta ver se o preço não é abusivo, normalmente a diária do guia custa em torno de R$ 150 e a estadia na casa dos habitantes por volta de R$ 50. Fora isso tem que contar os trajetos em 4×4, normalmente uns R$ 200/R$ 250 por trajeto. Quem quiser mesmo tentar organizar sozinho é só estudar bem o roteiro e pedir ajuda das pousadas. Elas sempre vão indicar o transporte e vão ter o contato de algum guia. Atenção que o guia deve ser experiente, afinal andar nas dunas exige muito senso de direção. Não ha praticamente nenhum referencial.
O melhor período é de abril a novembro, quando as lagoas estão cheias e o sol do verão não dificulta a caminhada.
Onde dormir ?
Santo Amaro : Pousada Bellas Aguas (Rua Osvaldo Cruz, 35)
(98) 3369-1176 (98) 8145-7512
Jornalista, mochileira, aventureira acidental, devoradora de relatos de viagens e pesquisadora compulsiva de destinos turísticos. O blog reúne experiências oriundas de 3 anos vivendo na França, 1 ano em Barcelona e várias outras aventuras impulsionadas pela curiosidade incontrolável de descobrir o mundo. Atualmente trabalho pro mercado francês, buscando novos destinos e montando roteiros no Brasil. [...]
Excelente relato! Farei essa travessia agora em maio, mas penso em fazer de jegue, ou cavalo. Vou fazer no sentido oposto ao seu: de atins até Santo Amaro. Você tem informações a respeito?
Obrigada!
Que ótimo Ana, mas não tenho nenhuma informação sobre a travessia a cavalo.