quarta-feira , Janeiro 17 2018
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Jalapão : desvendando o deserto das águas

fotos do jalapao

Cachoeira da Formiga e da Velha

Comecei a preparar o orçamento de viagem e me deparei com a velha problemática – o preço. O Jalapão é caro. E como é de difícil acesso, a fórmula clássica de conhecer seus mistérios é bem realista – contrata-se uma agência em Palmas pra fazer os circuitos ida e volta em 4×4. As chamadas expedições têm durações entre três e seis dias.

dunas do jalapão

Dá pra fazer o Jalapão por conta própria ? Sim, mas é recomendável um 4×4 na maior parte do ano e muito mais tempo pra se perder e se achar naquele chapadão. As distâncias são enormes, entre alguns atrativos mais de 3h de carro, ou seja, você pode se dar por perdido quando está no caminho certo e vice-versa.

Vale lembrar que, mesmo com uma população crescente nas cidades-base que contornam o parque, o Jalapão ainda é de baixíssima densidade demográfica (1 habitante por km2). O sinal de celular não pega em diversos lugares. Aconselhável, portanto, a ter boas noções de mecânica pra encarar a aventura.

jalapao atolamento

Nem a toyota trator se livrou do atolamento

Vi muita gente com carro próprio nos estacionamentos das pousadas em Mateiros e Ponte Alta, inclusive carros de passeio, não vi nenhum atolado nas estradas principais que são de cascalho batido e bem firmes, mas também não sei se conseguiram chegar aos atrativos mais isolados onde os caminhos são de areia. Acho difícil. O perfil desses viajantes autônomos : aventureiros cruzando o Brasil de carro ou gente dos arredores explorando o próprio Estado do Tocantins.

imagens do jalapão

 Mochileiro por convicção pode ir direto de Palmas pra Ponte Alta, porta de entrada do Jalapão ou até Mateiros já no interior do parque em serviços de van regular. Peguei esses contatos. Van sentido Palmas – Mateiros (saidas quartas e sabados 8h00 passando por Ponte Alta) / sentido Mateiros – Palmas (saidas segundas e quintas as 5h30). Ligar e pedir mais informações (63 ) 9991 – 4642. Lembrando que não testei esse serviço. Uma vez em Mateiros ou Ponte Alta, é possível contratar os serviços de guia e de transporte por dia diretamente nas pousadas. Sem um roteiro itinerante, no entanto, fica muito difícil conhecer tudo porque as distâncias são impraticáveis pra fazer ida e volta no mesmo dia. É sempre bom lembrar também que alguns passeios são arriscados, envolvem descida de cachoeiras etc … e um guia que seja credenciado no Jalapão é essencial.

flores do jalapão

Tempo de flores no Jalapão

Voltando aos fatos, fui com uma agência de Palmas. Mas como baixar o custo pra encarar o Jalapão? Afinal a verba da viagem não dava pra bancar um 4×4 com motorista sem um grupo.  Os preços só começam a ficar razoáveis a partir de 4 pessoas.

Decidi sondar no fórum do Mochileiros.com e pra minha surpresa já existia um grupo se organizando pra sair mais ou menos na mesma época. No final, fomos 6 pessoas. Entre paulista, carioca e potiguar todo mundo falou a mesma lingua e nos demos muito bem. O valor do pacote Jalapão: 1.000 REAIS por pessoa no roteiro de 4 dias, incluídas as refeições, as entradas nos atrativos, o motorista/guia e três pernoites em pousadas (nas cidades de São Félix, Mateiros e Ponte Alta). As agências de Palmas praticam mais ou menos o mesmo preço e oferecem serviços semelhantes. Só uma se diferencia pelo safári com camping inspirado na savana africana. Muito chique, mas não estava nos meus planos e não cabia na minha verba. Somando bilhetes de avião (640 REAIS) e as noites de hotel em Palmas, o total da viagem fica puxado.

Pra entender o Jalapão : 

mapa do jalapão

Esse mapa mostra bem que existem duas formas clássicas de entrar no Jalapão saindo de Palmas : por Novo Acordo ou Ponte Alta. Essa ultima porta de entrada é a mais comum. Ponte Alta é megalópole se comparada às outras que você vai ver e abriga a melhor infra-estrutura do roteiro. Mateiros fica bem no meio e é usada como a base principal no circuito. É dali que se parte pra visitar os atrativos marketing do Jalapão : fervedouro, cachoeira da formiga, as dunas douradas e o subida da Serra do Espírito Santo.

Aqui vai o passo a passo do meu roteiro no Jalapão.

Dia 1 : PALMAS – NOVO ACORDO – SÃO FELIX DO TOCANTINS

As 8:00 nos acomodamos na Toyota Bandeirantes e seguimos rumo ao Jalapão pelo caminho menos comum, entrando por Novo Acordo. Motivo segundo o guia : fazendo o caminho inverso você chega primeiro nos atrativos e aproveita com mais privacidade. De fato, na maioria das vezes estávamos sozinhos, mas também era baixa temporada, não deu pra comprovar se a tática funciona. O motivo das outras agências não fazerem é que entrando por Novo Acordo você roda muito tempo de carro já no primeiro dia sem ver grandes coisas. Enfim, depende.

emas no jalapão

No caminho entre Palmas e Novo Acordo : Emas

 Nosso destino final do dia era São Félix do Tocantins, no limite entre Piauí e Maranhão e tínhamos 300 km pela frente, sendo que 180 km de lama. Depois de 1h30 de estrada asfaltada, paramos na Praia do Borges pra comer um tucunaré na brasa. A parada é mais pra descansar as pernas do que pra ver o atrativo em si que não tem nada demais. A partir de Novo Acordo é atoleiro que só 4×4 encara.

morro vermelho no jalapão

Morro dos Macacos : quem consegue ver a macaca beijando o macaquinho ?

 Ao meio-dia estávamos na Fazenda Rosalina (63) 3369-1111 (precisa avisar que vai, senão não tem comida). A fazenda fica aos pés do principal atrativo do dia – o Morro Vermelho ou Morro dos Macacos, muito bom almoço, superior ao que iríamos encontrar pela frente. Nesse ponto a estrada ja é de terra batida e fica mais facil a navegação.

morro vermelho no jalapão

Mais uma bateria de 3h de estrada e paramos pras fotos no segundo atrativo do dia – a Pedra da Catedral.

pedra da catedral jalapão

Pedra da Catedral entre Novo Acordo e São Félix

Chegamos em São Félix às 18:00 e montamos base na Pousada Capim Dourado, depois de encarar um dia bem cansativo de carro. O detalhe é que ainda nem havíamos entrado no Parque Estadual do Jalapão (PEJ) propriamente dito.

buriti no jalapão

Muita coisa vista no final do dia

Curiosidade : O Governo do Tocantins anunciou no inicio de 2011 o projeto de construção da Estrada Parque, que vai levar o asfalto até São Félix do Tocantins. Revolução total que poderia ser no roteiro porque essa foi a parte mais difícil da estrada. O asfalto vai facilitar em muito a vida de quem vive isolado na região. Agora é esperar pra sair do papel …

DIA 2 : SÃO FELIX – MUMBUCA – MATEIROS

O Jalapão madruga ! As 6:00 fomos ao fervedourinho de São Félix, um aperitivo do famoso fervedouro do Formiga, em Mateiros. Achei bem bonito, mas sem a força do irmão mais famoso. Visita que valeu muito acordar cedo.

fervedouro no jalapão

O fervedouro é uma das sensações do Jalapão

Curiosamente 5 REAIS são cobrados pra entrar em qualquer atrativo, mesmo os que estão dentro do parque. Valor criado a esmo pelos moradores que ali estavam antes da área virar oficialmente o Parque Estadual do Jalapão. Eles se recusam a sair e, desde 2001, ano da criação do PEJ, travam batalha judicial com o poder publico em relação aos valores de indenização. Geralmente nos passeios das agências essas entradas já estão incluídas.

Depois do café da manhã do cerrado com muita tapioca, partimos pro melhor dia no Jalapão, afinal só hoje entraríamos de fato no parque e também porque tínhamos pela frente o mais espetacular do destino : a Cachoeira da Formiga, o povoado quilombola de Mumbuca, o grande Fervedor e as Dunas laranjas do Jalapão.

capim dourado no jalapão

O capim vira ouro na comunidade quilombola do Mumbuca

A chuva não deu muita trela, mas foi o dia que mais valeu a pena.

dunas do jalapão

Final de tarde nas dunas do Jalapão

A noite já tinha caído quando apontamos em Mateiros. Rumo direto praPousada dos Buritis, aparentemente lotada mesmo na baixa temporada. Nem gosto de imaginar como é nos feriados. O bom é que tem regras bem claras sobre não fazer barulho depois das 22:00. O jantar foi no restaurante da Dona Rosa (63) 9956-0383 / 0385, bem tradicional da cidade. Comida bem simples, você se serve diretamente da panela. Como a maioria, precisa reservar. Não que não tenha vaga, se chegar de surpresa não vai ter é comida pronta.

Dia 3 : MATEIROS – PONTE ALTA

O Jalapão é ativo, tem que acordar cedo. Esse dia começou às 3h30. Veja o relato da subida da Serra do Espírito Santo.

serra do espirito santo - jalapao

Depois do trekking da madrugada descansamos um pouco, visitamos a Casa do Artesão pra comprar mais artesanatos de capim dourado e seguimos viagem por volta de 11h. Esse dia não tem restaurantes no meio do caminho e comemos lanche. As visitas do dia foram a Cachoeira da Velha e a Prainha do Rio Novo, cada um com 1h de duração. Ou seja, pra 2h de visita, foram 6h dentro do carro. Algumas agências organizam rafting pelo Rio Novo o que pode ser uma ótima idéia pra preencher o dia. Chegamos em Ponte Alta por volta de 19h.

Dia 4 : PONTE ALTA – PALMAS

Dia de quase descanso na ultra megalópole de Ponte Alta, até banco tem. Saímos ás 9h pro Cânion do Sussuapara e logo pra Cachoeira do Lajeado.Os dois com nível de dificuldade zero.

canion jalapao

O Cânion do Sussuapara é um dos atrativos já chegando a cidade de Ponte Alta

Voltamos pro almoço na pousada, em seguida passada pela Pedra Furada e tomamos o rumo de Palmas. A distância de Ponte Alta a Palmas é de 187 km, sendo que de péssimas estradas. Chegamos já por volta de 20h na cidade. De volta ao mundo real.

pedra furada jalapao

JALAPÃO

Quando ir ?  O ano todo. Se puder escolher, evite a época de chuvas, que vai de Dezembro a Abril.

Quanto custa ? Avião do Rio + hospedagens em Palmas + 4 dias de passeio giram em torno de 1.700 REAIS

Informações oficiais : http://jalapao.to.gov.br/

Ir sozinho ?  A pousada Águas do Jalapão, em Ponte Alta, tem mapas bem interessantes dos caminhos

Obrigada ao Richard, Michele, Eduardo, Madelon e Claudia pelo compartilhamento de fotos e pela companhia de viagem. E ao Flavio, nosso guia e motorista em tempo integral.

Sobre Nivea Atallah

Jornalista de formação e mochileira por vocação.

29 comentários

  1. Gostei do post, li todinho… mês que vem vou pra lá, o bom que moro perto uns 375 km, e seu relato meu deu boas informações… No caso, no final vc disse (Quando ir ? O ano todo. Se puder escolher, fora da época de chuvas, que é de Dezembro a Abril.) acho que é ao contrario, pois é nesse mes de dezembro a abril que começa as chuvas.

  2. Adorei seu post. Não consigo encontrar o contato da pousada Capim Dourado! Podes me passar! Obrigada!

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