sábado , setembro 23 2017
Capa / Brasil / Mato Grosso / Desbravando a Transpantaneira

Desbravando a Transpantaneira

Viajo por vários motivos, mas um bem forte é minha vontade de ver bichos e me aprochegar mais da natureza. Depois de fazer acampamento selvagem, cavalgar e ser atacada por carrapatos no Pantanal Sul há dois anos, acabo de desbravar o Pantanal Norte. Foram quatro dias em um circuito itinerante que percorreu do início ao fim a Transpantaneira. De fazenda em fazenda, mais de 1.000 fotos na máquina, vi a onça pintada, proseei com os pantaneiros e finalmente cheguei à conclusão : amo o Pantanal.

 A Transpantaneira tem 145 km de terra batida, 125 pontes de madeira e uma abundância impressionante de fauna e flora por todos os lados. A estrada foi criada na época do “milagre econômico” da década de 70, mas, felizmente, falhou no objetivo inicial de rodovia e se transformou em rota turística para amantes de natureza.

pantanal transpantaneira (13)

Na seca (de abril a novembro) se vê facilmente jacarés, capivaras e todo tipo de pássaro como tucano, papagaio e a arara azul. É de pirar fotógrafos e ornitólogos.

passaros do pantanal

 A aventura de quatro dias começou logo depois do almoço quando partimos de Cuiabá rumo ao sul do Mato Grosso até Poconé – 100 km de estrada asfaltada. A partir daí entramos no km 1 da Transpantaneira, com as boas vindas de uma lagoa cheia de jacarés, as figurinhas fáceis do Pantanal.

gaviao - pantanal

Nosso safári fotográfico durou até o km 42, onde estava nosso ponto de pernoite – a Pousada Rio Claro. Quando chegamos já estava escuro e logo depois do jantar fomos dormir cedo porque a primeira atividade do dia seguinte começava às 6:00 !


Ao contrário do que eu pensava, os lugares de dormir na Transpantaneira não são fazendas na sua maioria, mas pousadas construídas pra receber turistas e fotógrafos. Todas oferecem os mesmos passeios e funcionam da mesma forma. Duas ou três atividades por dia dependendo do tempo que a pessoa fique, intercalando passeios de barco, cavalo, pesca de piranha, safári fotográfico e focagem noturna. Sempre em pensão completa.

O ideal é sair em vários momentos do dia pra aumentar as chances de ver os bichos. Por exemplo, uma atividade legal (pra quem não tem horror de acordar cedo) é sair antes do amanhecer pra ver os bichos que são sensíveis ao calor, como o Tamanduá bandeira. No final da tarde, são os pássaros como araras e tuiuiús que voltam pros ninhos. E de noite, claro, os animais noturnos tipo os lobinhos (não consegui fazer foto).

Nossa primeira pousada fica ao lado do Rio Claro e isso favorece muito o passeio de barco, a melhor oportunidade pra encontrar a ariranha, os jacarés e as milhares de capivaras. Foi tudo isso que vimos no nosso passeio antes do café da manhã.

passeio pousada rio claro pantanal

Seguimos depois do almoço pra mais um safári pela Transpantaneira, aproveitando pra chegar até nosso segundo ponto de pernoite – a Pousada Puma, no km 110. Foram muitas horas de carro e paradas pra fotos, mas foi muito bom esticar até quase o fim. Nosso objetivo era encontrar a onça pintada e não tínhamos muito tempo. Ali nos entornos já é território delas. Mas isso já contei no meu post “em busca da onça pintada”.

O encontro com a onça foi o ápice da viagem

Detalhe que nesse ponto da Transpantaneira já não tem mais energia elétrica, a pousada roda com energia solar e complementa com gerador.

Logo depois do café da manhã super bom partimos pros quilômetros finais, em Porto Jofre, no km 145. É legal ver como a paisagem muda e fica mais úmida e a mata mais densa. Por isso acho que vale muito a pena chegar até o fim da Transpantaneira. Muita gente acaba parando nas primeiras pousadas da estrada e perde muita coisa.

A volta foi longa, mas a atração da Transpantaneira é ela mesma e o tempo pouco importa. Dessa vez íamos pernoitar em uma fazenda de verdade e um santuário ecológico – a Pouso Alegre, no km 33. A sede da fazenda tem acesso pela Transpantaneira, entrando 7 km cerrado adentro em uma estrada suspensa.

veado transpantaneira
Quando vem a cheia, a pista fica com água dos dois lados. Não vi a cena porque outubro ainda é o mês de seca, mas deu pra imaginar pela quantidade de jacarés que ainda se aglomeravam nos resquícios de lagoas. Nesses 7 km vimos vários veadinhos campestres e catingueiros.

veadinho campestre pantanal
Fizemos uma focagem noturna e no dia seguinte fomos explorar uma parte dos 11.000 hectares da fazenda. Um dos locais é uma lagoa gigante com a maior quantidade de jacarés que eu já vi no Pantanal. Pra quem vai ficar pouco tempo e não quer ir até o final da Transpantaneira minha dica é ficar por aqui mesmo. Era nosso último dia nesse roteiro curto, mas bem proveitoso. Mais de mil fotos na máquina e aquela sensação estranha de ter que voltar pra civilização.

PANTANAL NORTE

Quando ir ?

De abril a outubro, período da seca e quando se pode ver os bichos. Na época da cheia e verão a quantidade de mosquitos é enorme e pode transformar a viagem em um inferno.

Como chegar ?

Não adianta, tem que ter carro ou alugar o serviço de um guia/motorista (com agência ou por indicação das pousadas). De Cuiabá, seguir 100 km até Poconé, onde começa a Transpantaneira. O restante do percurso vai depender de qual pousada ficar. 

A Transpantaneira é a MT-060  :

View Larger Map

Quanto custa ?

Varia muito dependendo do nível de conforto e dos passeios oferecidos pelas pousadas. Eu diria que a média é de 200-300 Reais / por pessoa e por dia. Isso incluiria a pensão completa e os passeios.

Onde dormir ?

Existem várias pousadas entre Poconé e Porto Jofre – que corresponde aos 145 km da Transpantaneira. O que vai definir onde dormir, no entanto, é a forma escolhida pra explorar o Pantanal – itinerante ou estático. Um circuito itinerante, como o que eu fiz dormindo em pousadas diferentes, aumenta as chances de ver animais variados. Só que pra quem tem pouco tempo, não quer ir com o próprio carro ou contratar um guia, existe a opção de circuito estático. Você compra o pacote da pousada e fica por lá mesmo fazendo os passeios. Geralmente incluem transfers regulares de Cuiabá, as atividades e alimentação. Um pacote de 4 dias e 3 noites fica em torno de 800/900 Reais por pessoa.

O que EU testei ?

Dormi nas pousadas Rio Claro, Puma e Pouso Alegre. Fiz passeios e almocei na Santa Teresa, Porto Jofre e Piuvial. As outras só visitei.

Km 10 – Pousada Piuvial
A melhor infra-estrutura da Transpantaneira na minha opinião (fora Porto Jofre que é caríssimo). As instalações são excelentes, a Globo andou gravando novela lá. Vendem carne de jacaré (são autorizados) pra quem quiser provar.Tem um mirante e várias lagoas com muitos bichos. Fazem o passeio pra ir ver o jaguar saindo de lá. Tem ótimos cavalos pra cavalgada. Desvantagem : É, de fato, bem próxima de Poconé. Tem day use e nos feriados pode lotar. Pantanal lotado de gente não é legal, garanto.

 Km 25 – Pousada Curicaca. Essa é uma pousadinha de charme com quartos excelentes e novinha, mas peca por não ter ar condicionado. Não oferecem passeios, é só pra dormir.

Km 32 – Araras Ecolodge
Foi incluída no Roteiros de Charme recentemente, mas sinceramente acho que cobra mais do que vale. É uma das mais caras. A vantagem é que tem passarelas que circulam toda a propriedade. Você pode andar por elas o dia todo e subir nos mirantes pra ver o pôr do sol, isso é bem legal. Tem muitos bichos do ladinho da casa e a água é tratada e reciclada. Desvantagem. Não tem água, apenas algumas lagoinhas artificiais. Os passeios em Rio são feitos fora de lá. Os quartos são bem pequenos e precisam de manutenção. A piscina é menor ainda e quando chegamos tinha um pobre de um jacaré lá dentro.

Km 33 – Pouso Alegre*
Fiquei feliz de dormir numa verdadeira fazenda depois de só ver pousadas. Da Transpantaneira, entra 7 km em pista suspensa. A variedade de fauna e flora é impressionante e bem preservada. É cortado pelo Rio Bento e tem várias lagoas com milhões de jacarés. Acho que é a melhor opção pra quem não tem muito tempo e quer ver muito bicho. Foi a minha preferida ! A comida e instalações são bem simples, mas tem ar condicionado e internet sem fio na recepção ou nos quartos mais próximos.

Km 42 – Pousada Rio Claro *
Dormi aqui a primeira noite e gostei muito. Boas instalações, mas tudo simples como em boa parte do Pantanal. Ar condicionado, piscina. Funcionários simpáticos, boa comida. Estrutura profissional. Fica ao lado do Rio Claro, o que dá mais flexibilidade aos passeios. Tem muito bicho, vimos muitas ariranhas, jacarés, capivaras, gaviõds. Desvantagem : Alimentam os bichos durante os passeios, fazem saltar etc …. Tem gente que não gosta dessa interferência.

Km 65 – Santa Teresa
Vantagem : Essa fazenda tem uma torre ao lado do ninho do Tuiuiú e é interessante ver e tirar foto. Tem um Rio do lado, mas estava seco. Tem uma torre de celular e pega internet sem fio. As instalações são bem corretas e com um pequeno charme lá no fundo. Desvantagem : Almocei ali e a comida é bem simples com poucas opções. Site só em inglês, pode ? O proprietário é um americano.

Km 110 – Pousada Puma * Vantagem : Fica no final da Transpantaneira, lugar estratégico pra ver a onça. Os proprietários são bem acolhedores, ambiente familiar. Ótima comida. Desvantagem : Não tem luz elétrica, a pousada roda em energia solar e gerador que nem sempre aguentam que o ar condicionado funcione. E com o calor do Pantanal ficou difícil dormir. A água não é tratada como nas outras pousadas, ou seja, é vermelha.

Km 145 – Hotel Porto Jofre

Vantagem : Todas as possíveis em termos de passeios, instalações e comida. Fica na beira do Rio Cuiabá, final da Transpantaneira. Melhor região pra ver a onça pintada. Desvantagem : É caro, quase proibitivo e por isso só se vê gringos andando por lá. Diária de 600 Reais sem as refeições. O aluguel do barco custa uns 700 por dia. Frequentado por fotógrafos profissionais, estrangeiros ou o pessoal da pesca esportiva.

 

 

Sobre Nivea Atallah

Jornalista de formação e mochileira por vocação.

17 comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*